segunda-feira, 20 de abril de 2009

Chuva: diário de um molhado

Chove. E a vida fica perfeita quando me sobe um cheiro de café forte do apartamento daquela mulher que mora sozinha com seu cachorro. Fico imaginando ela tomando seu café, contemplando a chuva pela janela enquanto seu cachorro fica sentado olhando a cena e de repente espirra. A chuva tem poder! Não falo das catástrofes, tampouco dos resfriados. Falo desse sentimento que ela nos cria. Essa umidadezinha que parece que borrifa nossa alma e lhe tira um pouco da secura que a vida, dura e sem sentido que levamos, instala nela. Esse cheiro de terra, que nos remete, inconscientemente, atavicamente, a um passado muito distante de quando ainda corríamos pelos campos e pradarias atrás de alces e gazelas e vivíamos com os pés fincados nela e dormíamos sentindo seu coração. Esse cheiro de água, que não tem cheiro, dizem, mas que a gente sabe que tem - cheiro de lembrança. É um cheiro que traz à memória momentos bonitos, amargos, alegres, tristes... momentos. Pense e você vai encontrar momentos inesquecíveis marcados pela chuva! A água repentina que caiu quando você chegava em alto estilo numa cerimônia de luxo. A tarde em que chovia muito e você amou inesquecivelmente aquela pessoa que fez folia em seu corpo, cujos exércitos invadiram o seu país e correu da sua vida sem dizer com pernas você devia seguir. A batida no trânsito, por culpa do asfalto molhado. O dia aquele em que sua adolescência ganhou o primeiro "eu te amo" escrito num vidro embaçado. Escolha um momento de tantos e cante à chuva, que ela merece todo o canto e louvor.
Eu me lembro aqui de dois momentos. Um, eu tinha sete anos e ia pra escola. Naquele tempo a gente usava capa-de-chuva, galocha e, ainda, guarda-chuva. A gente se preparava pra enfrentar a chuva. Mas nessa manhã eu não tinha saído nem de capa, nem de galocha, nem de guarda-chuva, porque minha mãe achou que não fosse chover. Às vezes ela errava, como errou prevendo que eu seria um grande homem, muito rico e importante. Naquele dia, quando me deparei com a chuva, a saída foi saltitar entre uma marquise e outra. Mas quando cheguei na quadra da escola, surpresa: não tinha mais marquise na rua. E cheguei todo molhado. E pior: molhei o caderno de caligrafia que eu amava. Chorei e pra sempre me lembrarei da chuva batendo no meu rosto, se misturando com as lágrimas, uma cena que se repetiu muitas vezes depois... chuva e lágrimas. A gente passa a vida pulando de uma marquise pra outra, sai pra chuva sem capa nem nada e não quer se molhar. Mas não adianta. A gente acaba perdendo o emprego de que gostava tanto ou precisava muito. A gente tenta não sofrer, tenta até não amar. Mas não adianta, um dia o coração acelera, a alma dilacera. Um dia fica só, sentado na calçada do mundo. Um dia, enfim, não tem marquise e a gente se molha e molha o caderno de caligrafia. A outra lembrança é de uma madrugada em que eu e Manon, uma moça tão linda como é raro seu nome, esperávamos táxi na esquina da minha casa. Eram 4h. De repente, chuva. Eu, elegantemente, tirei minha jaqueta jeans e armei uma proteção para nós. Ficamos bem juntinhos. Eu sentia o perfume do seu corpo, seu cabelo me reçova, seu hálito de vinho misturado com chiclete acariciava minha emoção. Naquela noite tínhamos saído pra jantar. Bebemos, fomos pro meu aparamento, bebemos, conversamos muito, rimos muito. E foi só. E estranhamente foi uma noite inesquecível, porque não acontecendo nada, aconteceu tudo. Das outras que aconteceu tudo, não lembro nada. Nunca mais vi Manon, mas ela viverá pra sempre em mim. Porque não acontecendo nada, aconteceu tudo. E porque chovia.

4 comentários:

Dona Rosa disse...

Perfeito... como a chuva que vem de mansinho.

Anônimo disse...
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Almir Moreira disse...

Chuva, café, combinação perfeita unidos com uma boa escrita e bons pensamentos.

abraço,

Aline Paiva disse...

(: Simplesmente - Amei!