quinta-feira, 11 de agosto de 2016

OS ‘UNIVERSOTÁRIOS’ DA FACULDADE E DA MÚSICA


"... até a música que são obrigados a consumir, já que não lhes é dada outra alternativa e também porque não foram ensinados a buscar, até a música, repito, é chamada de ‘sertanejo universitário’. Ora, essa música pobre, todas iguais saídas da mesma forma, de letras que incentivam a bebedeira e a putaria, ou choram o chifre e o desamor, numa pobreza poética, essa sim, de fazer chorar, não é sertaneja e muito menos deveria se chamar de ‘universitária’, uma ofensa a quem busca crescer, mesmo que seja nesse engodo que hoje é o ensino superior. Esperteza do mercado: se é universitário, é melhor. "


As universidades, cada vez mais, refletem essa verdade crua do mundo-mercado e cada vez mais, como disse Ciro Marcondes Filho, tendem para o ensino técnico-prático, formando “cada vez mais competências para repassar saberes específicos e formados à la carte, tornando os professores meros instrutores da operacionalidade técnica”. Nossas faculdades são cada vez mais profissionalizantes. Jornalismo, Administração de Empresas, Direito, cada vez mais são cursos técnicos, como Contábeis, Sistemas de Informação, Engenharia… Cursos superiores? Acho um deboche à cultura que a humanidade começou a construir desde 450 a. C. com os gregos, chamar esses cursos todos e todos os outros não citados, de superiores. Superiores a quê? em quê? Ensinam, no máximo, um fazer, uma técnica. Nunca um pensar o fazer. O ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências Contábeis e também da Academia Nacional de Economia, Antônio Lopes de Sá, perguntado sobre o principal problema dos cursos de Ciências Contábeis, disse: “falta filosofia, psicologia, tem contabilidade demais e cultura de menos”. Lopes de Sá, era doutor em Contábeis e doutor em Letras pela London University. Falta pensamento nos nossos cursos, isso que nos faz diferentes das outras espécies, ou pelo menos vinha fazendo nesses últimos séculos. Falta também emoção, falta afetividade nas nossas salas de aula. É claro que isso não falta só nas faculdades, falta em todas as salas de aula, com exceção das do prezinho. Aliás, já chamamos afetuosamente prezinho, porque ele vem antes da sala de aula propriamente dita, aterradora, castradora. Como lembrou Rubem Alves, estranho que nessa fase do prezinho, as crianças queiram ir para a aula e depois isso se transforma numa coisa enfadonha, triste mesmo. O sociólogo Francisco de Oliveira, tempera esse papo dizendo que “quando uma criança tem medo e não consegue dormir no escuro, nós devemos ir lá e acender a luz”. Nas nossas salas de aula de hoje o ar condicionado está ligado, mas as luzes estão apagadas e nós, professores, não sabemos onde está o interruptor, porque nunca nos disseram e tampouco fomos ensinados a procurar. Podemos até ter a técnica de uma boa aula, dominarmos toda a tecnologia embutida/empurrada goela abaixo de professores e alunos, mas não nos falaram sobre emoção, fraternidade. E sem isso não existe talento, não existe criatividade. Sem amor ninguém desperta. Ninguém desperta sem ser também cutucado, provocado nos porquês. Na porrada, na cobrança, na competição, no máximo, se assusta. Basta ver a cara de espanto dos jovens que são empurrados a fazer uma faculdade para, na melhor das hipóteses, ter algum chance de futuro, incerto e inseguro. São empurrados para um tal de empreendedorismo sonhando com concurso público, a única tábua para se agarrar nesse mar de desamor, competição e insegurança. A universidade está subserviente demais. “Diz-me, ó mercado, que tipo de formando quereis e eu te darei”. E ele - o novo Deus - responde: “Quero gente fria, que saiba fazer e não pense muito, quero gente-máquina, gente técnica que baixe a cabeça e produza e não ouse olhar diferente, fazer perguntas, quero gente que só pense em comprar uma calça nova, um carro novo, tomar a vodka da moda...”. E o pior - ou melhor de tudo, dependendo do lado que se olha a coisa – é ver que os universitários querem é esse ensino mesmo, embotados que já foram. Talvez seja melhor chamá-los não de “universitários”, mas como Sérgio Augusto em artigo na Bravo, de “universotários”. Porque até a música que são obrigados a consumir, já que não lhes é dada outra alternativa e também porque não foram ensinados a buscar, até a música, repito, é chamada de ‘sertanejo universitário’. Ora, essa música pobre, todas iguais saídas da mesma forma, de letras que incentivam a bebedeira e a putaria, ou choram o chifre e o desamor, numa pobreza poética, essa sim, de fazer chorar, não é sertaneja e muito menos deveria se chamar de ‘universitária’, uma ofensa a quem busca crescer, mesmo que seja nesse engodo que hoje é o ensino superior. Esperteza do mercado: se é universitário, é melhor. Chega a doer essa maldade.

A universidade cada vez forma mais gente só para produzir e consumir, enfim, viver como máquina. E produzir se conseguir emprego. E consumir se tiver renda. Sonhar, ousar, mudar, isso nunca. Aliás, sonho nesse mundo, só os que a mídia cria, de preferência de consumo. A técnica venceu. O talento e a criatividade perderam, eles só tem valor se for para o bem do mercado. A inteligência e a sensibilidade também. O homem perdeu. Não há iso, reengenharia, essa nova bobagem chamada coaching, ou coisa que o valha, capaz de criar a emoção de ouvir uma peça de Satie, ler um poema de Whitman (porque nunca foram apresentados a eles) ou mesmo a gratidão alegre por uma mão pousada no ombro em meio ao turbilhão desumano que o ser humano criou no trabalho, nas salas de aula, nos shoppings…coisas de outro mundo, não desse mundo técnico-tecnológico, frio-interesseiro, que coloca ferro nos dentes pro sorriso ficar bonito, mas não ensina nem diz do que rir, se não for produzido pelo Grande Irmão de Orwell, que a Globo debochou criando o ‘Big Brother’.
 E o homem pensa que está ganhando o jogo. Ele está qualquer coisa, menos iso.



terça-feira, 9 de agosto de 2016

A ARTE DE (DES)CRUZAR AS PERNAS


(revisado)

Porque a mulher conjuga, como o homem não sabe conjugar, o verbo esperar. Ela espera no bar, na festa, que o homem, normalmente já escolhido, venha conversar. Ela espera o sangue vir, depois espera ele ir. Se o sangue não vem, ela espera bebê. Nove meses de espera. Coisa que homem nenhum suportaria. Ela embala  o bebê e espera ele dormir. Ela espera o homem vir.

A mulher tem várias armas para derrubar, ou pelo menos bambolear um homem, no jogo da sedução. Uma das mais eficazes é o cruzar de pernas. Com saia ou vestido, claro. Aliás, essa é uma distinção - saia e vestido – que está além da minha compreensão. Tudo pra mim é saia ou tudo é vestido. Uma mulher que, diante de espécime macho, saiba cruzar as pernas e, o que é mais perturbador, saiba descruzá-las, soma pontos valiosos na planilha da sedução. A imortalidade de Sharon Stone está garantida não pela sua obra, mas pelos cinco segundos de seu cruzar e, principalmente, descruzar de pernas.
Antes de tudo, mais importante que tudo, acima de tudo, quase tudo: é preciso calma nessa hora, digo, nessa arte. É preciso ser mesmo lenta, câmara lenta – slow motion, para quem está mais acostumado ao português moderno. Aliás, a calma, um jeito devagar de fazer tudo, irmã gêmea da delicadeza, deveria ser a norma de todas as condutas da mulher. Na verdade, creio que as mulheres são mais lentas por natureza, e, por favor, eu estou elogiando. As ligeirinhas, agitadas, que me perdoem, mas não são o melhor do gênero. Foram corrompidas. Esses tempos de velocidade, de potência, de gente máquina, esse cruzamento doido de alma com tecnologia, que acelera tudo, isso é coisa de macho, mas acabou atingindo a mulher. Mas no fundo, na essência, ela tem a calma. Porque a mulher conjuga, como o homem não sabe conjugar, o verbo esperar. Ela espera no bar, na festa, que o homem, normalmente já escolhido, venha conversar. Ela espera o sangue vir, depois espera ele ir. Se o sangue não vem, ela espera bebê. Nove meses de espera. Coisa que homem nenhum suportaria. Ela embala  o bebê e espera ele dormir. Ela espera o homem vir. Rubem Braga escreveu aos 20 e poucos anos uma bela crônica sobre a mulher que espera homem. “Não importa que seja a esposa vulgar de um homem vulgar; e que no fim a história do atraso dele seja também vulgar, neste momento ela é a mulher esperando o homem”.
E quando um pneu do carro fura, a mulher simplesmente desce e ... espera alguém – homem, claro – para trocá-lo. No sexo, ela demora mais, e o homem, sem paciência, não espera como ela certamente esperaria. Depois, ela espera um papo carinhoso e ele não espera pra dormir. Até na hora da concepção se faz a diferença – 350 milhões de espermatozóides em louca carreira para chegar ao óvulo, que lentamente foi dos ovários para a trompa e lá, placidamente, espera o vencedor da corrida. O que não é diferente aqui de fora, onde o homem corre, corre, atrás de quem mesmo? Porra-louca dentro e fora.
Então, mulher, busque a calma se ela anda agitada dentro de você, que ela lhe pertence. A menos que você tenha 18 anos, ou por aí, porque aí é quase impossível. Vale para todas o que Afonso Romano escreveu sobre a mulher madura:

"Há uma serenidade em seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosas. A adolescente não sabe ainda os limites do seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muitos barulhos, joga muita água para os lados. Enfim, desborda. A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo de repouso da garça sobre o lago."

Particularmente sempre disse  que mulher começa a virar gente depois dos 25. Homem, muitas vezes, nunca vira, vivendo sempre o roteiro que lhe escreveram. A mulher espera se reiventar. Para encerrar esse papo vejamos a localização do sexo no homem e na mulher. O homem, arma em riste; a mulher, algo escondido - um lugar quente, úmido, pra dentro, estranho, muito diferente do sexo dele, pra fora, solto no mundo (agite antes de usar). Mulher é interior e tudo que isso implica - emoção, sexto sentido, mistério, conotação; homem é exterior, e tudo que isso explica, denotação.
Dito isso, minha amiga, calma sempre e em tudo, que esse bicho apressado chamado homem corre tanto justamente pra chegar aí – um regaço morno, um cafuné de mãos delicadas, a paz depois da correria, sono abraçado numa nuvem: ela ressonando no seu ombro. Então, mãos à obra. Aliás, pernas. Mas bem devagarzinho.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

CORRER COM DEUS OU CORRER COM OS HOMENS

Quando passava um cruzamento olhava para as pessoas nos carros, presas no ar condicionado e no vidro escuro (a cara de nossas vidas longe da vida), e ao mesmo tempo que sentia pena delas, me sentia constrangido. O que pensavam de mim, ali solitário, derretendo, ao invés de estar junto deles, "correndo" pro trabalho, pra aula, enfim, pra algo “produtivo”?

Agora que minha vida enfim, começa a voltar ao normal, depois de 7 meses no limbo, pós cirurgia e outras feridas, e retorno a correr, quero correr também pelos pensamentos com você. Quero falar das diferenças de onde se corre. E do prazer que é correr. E chegar mais uma vez a Deus.
Comecei correndo pela Oliveira Paiva, uma grande avenida aqui de Fortaleza. Depois experimentei a Washington Soares, artéria maior ainda, mas que tem pista central para quem corre, caminha ou anda de bicicleta. Por fim voltei a correr na praia. E aí seguem minhas filosofadas semióticas.
Correr na Oliveira Paiva, uma avenida semelhante a tantas do Brasil a fora, é correr na cidade com o que ela tem de mais cidade, isto é, calçadas irregulares, buracos, sinaleiras, cruzamentos, carros e carros enfileirados, uns entrando nos postos pra abastecer, outros saindo; bêbados e pedintes; vendedores de comida de rua, tapioqueiras... enfim, é a cidade como ela é. A avenida tem vida, tem alma. Mas tem a marca desse tempo: a pobreza da rua, o luxo e a solidão dos carros, com gente apressada, atrasada, preocupada, estressada. Sem falar no ar que se respira. Precisa tanta atenção, e tem tanta distração que desisti.
Mudei. Fui pro corredor da  Washington Soares. Correndo cedo, passava por um aqui outro ali, gente com fones nos ouvidos e ladeado por filas intermináveis de carros, mais uma vez com gente apressada, atrasada, preocupada, estressada, querendo chegar a algum lugar. Mas aquela pista me pareceu tão fria, me fez sentir tão só. Quando passava um cruzamento olhava para as pessoas nos carros, presas no ar condicionado e no vidro escuro (a cara de nossas vidas longe da vida), e ao mesmo tempo que sentia pena delas, me sentia constrangido. O que pensavam de mim, ali solitário, derretendo, ao invés de estar junto deles, "correndo" pro trabalho, pra aula, enfim, pra algo “produtivo”?
Não senti a alma da cidade, que ficava nas calçadas. Me incomodou. Sem falar no ar, de novo. Ali também não era lugar.
Por fim, voltei à correr na praia. Uau! Ufa! Aff! Que diferença!
Pés descalços na areia, mar rugindo do lado, sol e brisa fazendo dueto no meu corpo. Algumas pessoas também corriam, e, surpresa!, sorriam,  davam “bom dia”.  Casais caminhavam de mãos, bandos de cachorros se exercitavam atrás de peixes jogados fora, milhares de conchinhas saudavam meus passos ...
Ali estava Deus. Ele também estava nas avenidas. Muitos deviam estar nos seus carros, ouvindo hinos, pastores, padre Marcelo, Reginaldo Manzotti. Deus era o bêbado caído, aquele homem com uma placa “tô com fome”. Cristo é o outro. Mas a diferença é que naquela confusão toda, a gente nem nota isso. É tanta atenção-distração que a gente nem nota a si mesmo.
Correndo sozinho na praia, sentia Cristo correndo do meu lado. “Bora, cara!”. Olhava o horizonte azul e lá estava Ele. Extenuado, tomei um banho, me atirei na areia olhando o céu. E lá estava Ele. Sei que Ele está em todo lugar, mas na maioria dos lugares que construímos (ou destruímos) é mais difícil encontrá-Lo. Por isso voltei ao mar. Ou o mar voltou pra mim. Se você corre na cidade, e pode dar um jeito de correr na praia, faça-o. Mesmo que você só busque saúde, vai ser muito melhor. Mesmo que você não creia ou não busque Deus, Ele está lá te esperando. Na paz, na brisa, no rugir das ondas, no infinito do horizonte e do olhar pra cima. E principalmente do olhar pra dentro. Vai ser muito melhor.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A MÁQUINA EM CADA UM DE NÓS

Da série "Dos outros, que amo".

Carlos Drummond de Andrade, mais atual do que em 38. Com vídeo de Caetano.



Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O AMOR NO TEMPO DO FAST- FODA

(revisado)

Imagine uma situação hipotética onde um homem e uma mulher que nunca viram uma cena de amor entre namorados, nunca viram um homem e uma mulher fazendo sexo fossem colocados num luxuoso quarto de motel, com a melhor champanhe, música romântica e tudo o mais... O que aconteceria? Rolaria? Não aconteceria nada. Não rolaria nada. Porque não saberiam o que fazer, como fazer. Uma frase comum na nossa sociedade – e carregada de preconceito moral – é que “sem-vergonhice a gente nasce sabendo”. Primeiro essa sem-vergonhice não é sem-vergonhice – é vida. Segundo, a gente não nasce sabendo essas coisas, a gente aprende. Pelos filmes, novelas, pelos romances, pelas ruas, na família, isto é, na vida mesmo. É claro que os filmes pornôs mais deseducam do que educam, porque ninguém é daquele jeito, é claro que os romances e novelas ensinam uma noção açucarada da felicidade a dois, é claro que as famílias..., bem não vamos discutir isso aqui. E é claro que uma situação como propus lá em cima é impossível de acontecer, porque duas pessoas assim isoladas do mundo não seriam pessoas. Mas essa experiência foi feita com macacos Rhesus, os mais próximos dos humanos. Macacos e macacas foram criados sem convívio social e sexual que lhes possibilitasse ver o que e como fazer. E quando foram colocados juntos o que aconteceu? Nada. Ou melhor, aconteceu que eles ficaram excitados, mas não sabiam o que fazer. Ficavam correndo, se tocando, a fêmea tentava montar o macho, o macho ficava mais agressivo e, por fim, se não fossem separados, se matavam. Bem, vamos partir daí.
A gente aprende a fazer sexo e aprende a amar. No caso do sexo, vendo e fazendo. No caso do amor, é um pouco diferente. A gente vai ter uma relação com o amor diretamente ligada ao tipo de amor que recebeu, ou não recebeu, ao tipo de amor que aprendeu, ou não. Fechemos o foco no amor, porque sexo tem por aí em todo lugar, dos out-doors aos motéis, embora a questão pareça ser mais de quantidade do que de qualidade. Fechemos o foco no amor, porque esse está em baixa enquanto vivência, concretização, embora se tenha uma necessidade essencialmente humana dele.
O amor é a maior e mais bela experiência que podemos experimentar na vida. Falo do amor em toda a sua extensão, amor homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher, amor de pai-mãe por filho, pelo próximo... Mas fechemos o foco no amor entre homem e mulher. E ele é, repito, um aprendizado. Buscaglia, pedagogo norte-americano, ensina no livro ‘Amor’, “que a maioria de nós continua a agir como se o amor não fosse um fenômeno a ser aprendido e sim como se vivesse adormecido em cada ser humano, simplesmente esperando (...) para emergir em toda a sua intensidade. Muitos esperam (...) para sempre. Recusamo-nos a encarar o fato óbvio de que as pessoas, em sua maior parte, passam a vida tentando encontrar o amor, tentando vivê-lo, e morrendo sem nunca tê-lo descoberto verdadeiramente”. Triste isso, né?
O psicanalista Erich Fromm, no livro ‘A arte de amar’, frisa que a postura de que “nada é mais fácil do que amar tem continuado a ser a ideia predominante, apesar da esmagadora prova em contrário.” E vai enfatizar que o amor é uma arte. “Se quisermos aprender como se ama, devemos proceder do mesmo modo que agiríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, seja a música, a pintura (...)”. Como se vê, a coisa é complicada, por isso esse fracasso tremendo nos nossos amores. Sem falar que queremos mais ser amados do que amar.
E nessa nossa sociedade mercantilista, acabamos por não viver só no sistema, mas vivemos o sistema. Quer dizer, nossas relações são perpassadas pelo capitalismo. Se a sociedade é de consumo, nos consumimos uns aos outros, utilitariamente. No mundo do fast-food, no plano sexual inventamos o fast-foda, o sexo casual, tipo lavou tá novo. No amor, acabamos adotando a mesma postura, o fast-love. Ou seja, não investimos no amor; ou seja, não nos predispomos a aprender a amar, a construir uma relação, porque isso demora tempo e demanda investimento emocional e riscos e perdas e danos. 
Vejamos o caso de Fernanda. Ela, livre e desimpedida, conheceu Lúcio, que recém tinha se separado. Se encantaram. No apartamento dele ao lado da cama onde fizeram amor, ainda tinha um porta-retratos dele com a ex e o filho. Querendo mostrar maturidade, ela disse que achava aquilo normal, porque era o filho dele e a mãe do filho dele. Superfície. No fundo, aquilo a incomodara. Com os dias, vendo que apesar de encantado com ela, ele ainda nutria sentimentos pela ex-mulher, levou um papo-cabeça com o cara. Disse que era melhor ficarem por ali, ele tentar se reconciliar, que o casamento dele tinha poucos anos e blá, blá, blá. Ela me contou que chegou em casa e chorou todas as lágrimas, mas que se sentiu decente. Mas ela não foi decente . Ela foi covarde. Porque ela não fez isso por ele, fez por ela. E fez por medo do investimento emocional, por medo das perdas e danos a que se sujeitaria. O aprendizado do amor exige compromisso, empenho, boa vontade, e riscos. Ou seja, Fernanda queria que Lúcio investisse no amor, o que ela não fez. Queria que ele lutasse, o que ela não fez. Assim, era melhor partir pra outra, outro cara, um prato mais simples, menor, mais digerível, sem risco de azia, apesar da fome. Era melhor partir pra outra, outro cara, no grande buffet das nossas relações. Assim Lúcia perdeu Fernando, um cara que pra ela tinha tudo e todas as qualidades por quem valeria a pena lutar. Mas não quis lutar. E perdeu. Não quis tentar aprender a amar e tentar construir uma relação verdadeira, esse “momento de unidade”, como diz Fromm, e que “é uma das mais jubilosas e excitantes experiências da vida”. Coisa da nossa cultura fast-foda, fast-love, fast-tudo. Coisa desse tempo onde a gente perde e se perde, pensando que se acha; que perde, sem nem lutar. WO. Fast-vida.


terça-feira, 2 de agosto de 2016

QUARTO 157, A VIDA QUE FOGE, COMO A NOSSA


na primeira cama Carlos, 48 anos, uiva pela mãe
e grita, sem parar:
 'eu quero cagar!!'
comove a dignidade humana:
amarrado, de fraldas, não quer fazer na cama
pura chaga, devorado pela hemodiáilse
e pela diabetes
ele repete
como um conta gotas
 seus uivos de dor arrepiantes;
na segunda cama
 Francisco, 74 anos, três avecês, se abana
 e me olha com olho de quem não vê
não fala, não existe mais...
na terceira, um anjo de 92 anos, 38 quilos,
enche os pulmões de ar
pelas últimas vezes, teimando.
em cada um vejo um Cristo
uma cruz cruzando
a realidade de um quarto do SUS
a luta e a busca pela vida
é a realidade da vida lá fora
agonizantes, zonzos, corremos atrás do que nos mandaram correr,
também  queremos  vida (mas qual?), agora
que cada dia, sem aviso,  vai indo embora
que a cada dia, sem aviso, vamos botando fora
correndo pra longe de nós...
a dignidade de Carlos bate na minha cara.


quarta-feira, 13 de julho de 2016

A MULHER AMADA NUA

Quem troca de corpos com frequência, só tem troca de corpos. Não que isso seja ruim, mas é incomparável à troca de corpos com almas. Aliás não é troca, é toque. Dormir com a mulher amada, fazer amor com a mulher amada e acordar ao lado da mulher amada é tocar sua alma, mesmo que quando vc depois a olha, nua, atirada entre os travesseiros, não sabe por onde ela anda.


Olhar a mulher amada dormindo, nua, mergulhada nos travesseiros é um momento/sentimento único. Olhar aquele corpo, ali estirado, mergulhado no seu mundo, provoca uma multidão de pensamentos. 
Aquele corpo é o corpo da alma que eu amo, e onde andará ela nesse instante? Sonha com o quê? Por onde vagará?, nadando em mares verdes, andando por matagais perigosos, pratos saborosos, outros braços? Ah, se desse para entrar nos seus sonhos agora e descobrir isso que nem ela desvenda, sua alma misteriosa...
Aquele corpo é o corpo que eu amo. Que em noites de tempestade, sacode a terra com seus frêmitos, gemidos e gozos. Que em noites de calmaria, se aconchega ao meu corpo e deixa seu perfume invadir meus pulmões, seu calor aquecer meus pelos, e sua respiração ao meu ouvido exaltar o estar vivo ao lado dela, duas vidas unidas em corpo e alma.
Quando olho sua pele branca, onde veias parecem rios que correm cheios de seiva para o seu coração que pulsa ao som do mistério da vida e do nosso encontro tão desencontrado, tudo tão lindo, tão louco, tão calmo, tão tudo...
Quando vejo seus cabelos ‘assanhados’ pelo sono e pelos meus dedos, que não se cansam de correr entre eles, fios de ouro; de tocá-los, harpa silenciosa, percebo o quanto é belo vê-la tão ‘desproduzida’, tão minha, tão nós.
Isso é olhar para a mulher amada dormindo. Muito diferente de olhar aquela estranha que passou a noite com você e que ao acordar, assim meio sem jeito e sem assunto, os dois forçam uma intimidade baseada na noite que tiveram, mas que por mais prazerosa que tenha sido, foi isso apenas, a noite prazerosa que tiveram. E pode nunca mais se repetir.
Não há comparação ao se acordar ao lado da mulher amada, e contemplá-la com sua beleza, até com o que para ela é não beleza, uma estria aqui uma celulite aIi... porque a mulher amada está acima disso, até porque aqueles ‘defeitinhos’ são a história do seu corpo, as marcas do seu tempo. São ‘indefeitos’.
Quem troca de corpos com frequência, só tem troca de corpos. Não que isso seja ruim, mas é incomparável à troca de corpos com almas. Aliás não é troca, é toque. Dormir com a mulher amada, fazer amor com a mulher amada e acordar ao lado da mulher amada é tocar sua alma, mesmo que quando vc depois a olha, nua, atirada entre os travesseiros, não sabe por onde ela anda. Mas vc sabe que está na alma dela, de alguma forma, e sabe que no corpo dela estão as marcas do seu, e vice versa. E o vice versa é isso, é amor, é corpo e alma.